domingo, 3 de fevereiro de 2008

A VIAGEM DOS ANDRADES

Meus pais, o seu Dal Bianco e a dona Aide, vieram para umas ferias de um pouco mais de 2 semanas na europa. A primeira viagem em territorio europeu eu fiz questao de organizar - iriamos a Portugal procurar a casa onde meu avo, o seu Jorge, morou ate' os 12 anos de idade aproximadamente. Sua familia residia na regiao do Porto, em Povoa de Varzim, na Rua Santos Minho, 48. Eles tambem tinham uma casa de campo em Moreira da Maia, mas dessa casa nao tinhamos o endereco exato. Tudo o que tinhamos era uma foto tirada na decada de 20 que meu pai trouxe na esperanca de encontrarmos o lugar. De todo modo, estava tudo preparado para uma legitima viagem em busca das raizes dos Andrades.

Depois do inicio agitado de viagem, com direito a perda de voo e tudo mais, as coisas entraram nos eixos e nos encontramos no aeroporto Charles de Gaulle no horario marcado. Em seguida fomos para Paris e nos hospedamos em Montmartre. Ainda tivemos o final de tarde para passear e curtir um por do sol sensacional na cidade. A noite caminhamos mais um pouco na regiao do Sena, jantamos no Quartier Latin e voltamos para o hotel preparar as malas para o dia seguinte. O destino era Lisboa, onde passariamos o dia e em seguida iriamos de carro para Porto.


Chegando em Lisboa saimos para um reconhecimento do territorio. Caminhamos na parte baixa da cidade nas margens do Rio Tejo e paramos na Rua do Comercio onde uma porcao de artistas expunha seus trabalhos a ceu aberto. A noite comemos um bacalhau assado e ouvimos fado no Bairro Alto. O dono do restaurante nos disse que era descendente do Marechal Floriano Peixoto. Alias, a impressao que tive e' que todo portugues que se preze se diz parente de alguem famoso ou importante. Um outro patricio que viriamos a encontrar no decorrer da viagem disse que seu avo tinha sido o construtor do sambodromo do Rio de Janeiro.

Depois de dirigirmos um pouco mais de 300 km de estradas perfeitas chegamos a Porto. Como de costume, pegamos o metro e saimos conhecer o centro da cidade. Cruzamos uma das pontes em direcao a Vila Nova de Gaia e voltamos pelo Bairro da Ribeira ate' encontrarmos um restaurante discreto e aconchegante onde saboreamos mais um bacalhau com vinho do Porto. Nessa noite preparamos os mapas para no dia seguinte irmos de encontro as raizes da familia Andrade.

Por volta das 10 da manha estavamos na estrada A-1 em direcao ao litoral norte portugues. A medida que deixavamos as estradas principais, os nossos mapas nao forneciam em detalhes a direcao que deveriamos seguir. Chegamos a pegar uma estrada que nos levaria a Braga, saindo muito do nosso itinerario. Nesse momento fizemos o retorno e continuamos a viagem na base da intuicao, seguindo as placas de transito que estavam disponiveis, ate' chegar ao ponto em que uma delas indicava Moreira da Maia em frente. Ainda meio em duvida entramos a direita como indicava outra sinalizacao. Nao demorou um minuto para meu pai bradar empolgadamente - e' essa a casa!!! Sem querer tinhamos acabado de passar em frente da casa de campo da familia do meu avo. Eu parei o carro logo a frente, meu pai tirou do bolso a foto preta e branca de 1920 e fomos verificar detalhe por detalhe a construcao. A casa agora e' um restaurante e dois modulos foram adicionados nas paredes laterais. Reconheco que na epoca do meu avo ela era muito mais bonita e elegante, mas alguns detalhes da construcao continuam intactos, como a sacada do segundo andar, algumas janelas e o contorno do telhado.


A proxima parada era Povoa de Varzim. Continuamos na mesma pegada, sem mapas e somente seguindo as sinalizacoes. A ideia que eu tinha de Povoa era baseada nas fotos antigas que meu avo me mostrou, de uma cidade litoranea tranquila, com praias bonitas, sossegadas e espacosas. Essa ideia desmoronou assim que chegamos la'. Depois de tantas decadas de progresso, Povoa de Varzim se transformou mais ou menos em uma gigantesca praia de Copacabana, porem bem organizada e urbanizada, com predios de no maximo 6 andares. Pelo menos as aguas do oceano Atlantico e as areias das praias continuam as mesmas.

Um pouco antes de irmos ate' a Rua Santos Minho 48, que ja' tinha sido localizada no mapa, paramos para tomar um cafe' e observar o mar e as pessoas. Havia alguns surfistas que se arriscavam a entrar nas aguas frias do inverno portugues. Nessa hora fiquei imaginando o seu Jorge jovem, segurando um long board enorme, observando o mar de frente e se preparando para pegar umas ondas. Esta' certo que na epoca dele nao tinham inventado o surf ainda, mas com certeza uns jacares ele ja' pegava...

Realmente meu avo morava muito perto do oceano, ha' cerca de 4 ou 5 quadras de distancia. Nao e' a toa que ele gosta tanto do mar. A casa numero 48 da Rua Santos Minho continua la' - bem conservada. Parece que os azulejos foram trocados recentemente. Tiramos uma porcao de fotos e conversamos com a vizinhanca sobre os antigos moradores. Infelizmente nao encontramos ninguem que pudesse lembrar da presenca da familia Andrade no comeco do seculo passado. De todo modo, as fotos serao levadas para Curitiba e entregues para o seu Jorge rever a casa de onde ele saiu na decada de 20 e nunca mais retornou.

No meio da noite voltamos para Lisboa e no dia seguinte para Franca. Agora o seu Dal Bianco e a dona Aide devem estar dentro de um trem, continuando a viagem rumo a Berna, na Suica. Em seguida eles irao a Berlim e no proximo final de semana retornam a Paris, onde os encontrarei para a despedida. Espero que essa parte da viagem seja tao boa quanto foi o nosso mergulho nas raizes portuguesas...

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

LES BONS MOMENTS

Enquanto mais de quatrocentas mil pessoas celebravam a passagem do ano na Champs Elysees e outras centenas de milhares se acumulavam debaixo da torre Eiffel, eu, Glaucia, Mauricio e Daniel passavamos praticamente sozinhos a virada do ano no underground de Paris, mais especificamente na estacao Odeon no centro da cidade. A nossa comemoracao de pre-passagem de ano no hotel se estendeu um pouco alem do previsto e o reveillon acabou sendo festejado no metro, de maneira inusitada e divertida. O destino final era Muftar, onde encontrariamos o Peretti e procurariamos um bar singelo e aconchegante para darmos continuidade as comemoracoes.


Nao ha' nada melhor do que sair de Poitiers por uns dias e passar o tempo em Paris. O fato de podermos revisitar os lugares preferidos e descobrir novas caminhadas diurnas e noturnas na regiao central da cidade e' o suficiente para enchermos o coracao e a mente de energia. Dessa vez nos hospedamos em Montparnasse, na regiao sudeste da cidade. E' uma regiao que se tornou conhecida no inicio do seculo XX, quando foi o coracao da vida intelectual e artistica de Paris. Nomes como Pablo Picasso, Salvador Dali e Joan Miro faziam parte do cotidiano do bairro. Hoje em dia, alguns cafes inaugurados naquela epoca ainda oferecem uma certa atmosfera saudosista, como e' o caso do Cafe du Metro que acabou virando uma parada tradicional sempre que descemos a pe' a Rue de Rennes.

Tradicional tambem se tornou nossa presenca em Belleville. Na ultima viagem tinhamos jantado em um restaurante muito agradavel proximo a Rue de Belleville. Dessa vez infelizmente o lugar estava fechado, o que nos obrigou a iniciar uma caminhada meio sem destino. Porem, nao demorou muito para pararmos em frente a um pequeno restaurante tipicamente italiano. De fora podiamos acompanhar uma senhora, com seu avental coberto de farinha, amassando e esticando as massas que em questao de minutos se transformavam em suculentas pizzas. Resolvemos entrar e pagar pra ver, comer e beber. No final das contas foi o melhor dinheiro investido naquele dia. A cantina foi aprovada por unanimidade e foi mais um exemplo de que em Belleville ha' boas surpresas por todos os cantos. E' uma questao apenas de caminhar abertamente por suas ruas obscuras.


Ainda em 2007 resolvemos aproveitar o ultimo domingo do mes, dia em que todos os museus da cidade oferecem entrada gratuita, para visitar o Musee d'Orsay. Mas como ja' era esperado, a fila de entrada era longa demais ate' mesmo para o mais paulista dos cidadaos. Deste modo, colocamos em pratica a opcao do Musee d'Art Moderne de la Ville de Paris. Para chegar ate' la', andamos mais alguns minutos ao longo da margem direita do Sena. Alem da caminhada ter sido como sempre extremamente aprazivel, o museu acabou sendo uma otima escolha, tanto pelo seu conteudo quanto por sua localizacao, longe das multidoes de turistas e com uma vista privilegiada da torre Eiffel parcialmente encoberta pela vegetacao deteriorada ao longo do inverno parisiense.



Depois de termos virado o ano na estacao Odeon e encontrado o caminho ate' a Muftar, comecamos uma caminhada rumo ao tal bar singelo e aconchegante prometido pelo Peretti, que nesse caso nos conduzia pela cidade com propriedade, ja' que ele conhece Paris como a palma de sua mao. Ao longo do caminho trocavamos desejos de feliz ano novo com uma porcao de franceses entusiasmados que tambem perambulava pelas ruas. Ha' cerca de uma quadra do bar acabamos passando pelo casal mais empolgado da noite. O rapaz estava um pouco mais contido, mas a moca estava cheia de amor pra dar - foram beijos na boca de todos para comemorar o novo ano. O Mauricio aproveitou o embalo, puxou a mulher para um canto escuro e tirou o atraso com direito tambem a longos abracos e amassos calorosos.

Apos esse pequeno trato de ano novo, entramos no bar e nos acomodamos em uma mesa para verificar a atmosfera do lugar. Como diria o nosso filosofo Daniel, era realmente um ambiente de pessoas interessantes e sofisticadas. Sendo assim, entramos no clima do reggae frances que soava dos autofalantes e aproveitamos o restante da virada do ano a moda parisiense.


O primeiro dia de 2008 amanheceu tarde, extremamente cinzento e muito frio. Ocasiao perfeita para uma visita ao tumulo de Oscar Wilde no cemiterio Pere-Lachaise. Por coincidencia, o nosso caminho acabou sendo feito mais ou menos nos moldes de uma das historias do filme Paris Je t'Aime. Inclusive saimos rumo a um cafe' nas redondezas pelo mesmo portao em que o casal ingles deixou o cemiterio. Quem quiser conferir o curta-metragem e a paisagem do Pere-Lachaise pode acessar o seguinte link -
http://www.youtube.com/watch?v=KPooG-RvA0g&feature=related

No dia seguinte arrumamos as malas no final da manha, fechamos a conta do hotel e preparamos as mochilas para o retorno a terras poitevines. Mas antes de sairmos em direcao a Estacao Montparnasse para pegar o TVG das 18:50 ainda tivemos algumas horas para almocar e finalizar com um amigo romeno que estava na cidade os ultimos bons momentos da virada do ano.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

SANTE, PAIX ET HARMONIE

O final do ano esta' chegando e com ele um saudavel periodo de reflexoes sobre o que aconteceu de positivo, ou as vezes nem tanto, nos ultimos onze meses e poucos dias de nossas vidas. Em breve sera' o momento daquele agradavel sentimento de recomeco que vem acompanhado do verao, do calor e do ano novo. Aqui no hemisferio norte a sensacao e' um pouco diferente, mas nao deixa de ser uma epoca de paz, propicia a ponderar sobre o que se passou e planejar o que esta' por vir.


A impressao que tenho aqui e' que o ano esta' acabando pela metade, talvez pelo fato de ser praticamente inverno e nao haver o tradicional clima pre-carnavalesco brasileiro. Alem disso, a universidade esta' na metade do ano letivo e ninguem pensa em viajar de ferias nesse momento, pois estudantes e professores estarao em plena epoca de exames ja' no inicio de Janeiro. No meu caso, o Laboratoire de Combustion et de Detonique estara' fechado por cerca de quinze dias, periodo suficiente para descansar e fazer uma pequena viagem no final do mes.


Eu ja' havia passado o natal no hemisferio norte, mas o ano novo sera' a primeira vez. Nesses ultimos dias estive procurando algum destino interessante e economico para passar a semana da virada do ano, porem, acabei demorando demais para organizar a viagem, adquirir bilhetes aereos e fechar reservas de hoteis. Algumas opcoes interessantes eram Amsterdam, Bruxelas e Berlim (na verdade meu destino preferido era Berlim), mas foi impossivel conseguir fazer reservas em hostels ou hoteis que oferecessem precos pelo menos razoaveis. Alem disso, as passagens aereas estavam um pouco escassas devido a procura na proximidade da virada do ano. A opcao seguinte foi pesquisar estadia em Paris. Felizmente, foi possivel encontrar um hotel com vagas proximo a Montparnasse, o que nao deixa de ser uma otima escolha para a ultima semana do ano.


Fazendo uma retrospectiva, os meus ultimos onze meses e poucos dias foram preenchidos com mais momentos positivos do que negativos. De fato, se eu tivesse que dar uma nota para o ano de 2007, ele passaria acima da media e com louvor. Do comeco do ano ate' inicio de Agosto, estive uns dois ou tres meses em Curitiba e no restante do tempo no Rio de Janeiro. Na minha cidade natal a vida continua como sempre - organizada, gastronomica e confortavel. Curitiba e' mais ou menos como um enorme jardim de araucarias, com rock e comida da melhor qualidade, onde encontro conforto e familiaridade em todos os cantos e a companhia inestimavel de pessoas queridas e amigos inseparaveis.


No Rio de Janeiro tive a oportunidade de me envolver um pouco mais independentemente com a cidade que se apossou em definitivo de parte do meu coracao. Foram varios bons momentos, a comecar pela estadia na simpatica e divertida casa da gavea que dividi com pessoas muito bacanas. Tambem me aproximei bastante de alguns amigos, especialmente dos meus prezados da PUC-Rio e do IMPA. Foram varios momentos de confraternizacao, sempre regados a muita musica boa, conversas interessantes e alegria – saudades do Portao Express, do Beco do Rato, do Trapiche, do Circo Voador, do Largo dos Leoes, da Ovelha Negra e da Morena de Angola.


A partir do dia em que cheguei em Poitiers, o estilo de vida mudou um pouco. Na verdade, uma das ideias principais em vir pra ca' foi de dar um incremento na vida profissional. Ou seja, aproveitar a expertise do laboratorio da ENSMA (Ecole Nationale Superieure de Mecanique et d'Aerotechnique) para desenvolver um bom trabalho de doutorado. No inicio foram cerca de tres ou quatro semanas de adaptacao mais intensa, alem de bastante detalhes a acertar relacionados a parte burocratica e administrativa da minha estadia. Depois desse periodo, as coisas foram entrando nos eixos e hoje em dia estou a vontade por aqui, envolvido no trabalho e aproveitando bem o tempo livre, inclusive jogando um futebolzinho nos domingos, coisa que nao fazia ha' muito tempo.


Agora, ja' caminhando para a segunda quinzena do mes de Dezembro, comeco a sentir o gosto de um ano novinho em folha chegando. Como e' bom ter um ano inteiro, completamente zerado pela frente - serao novos 365 dias de possibilidades. Mesmo estando no hemisferio norte, longe do calor e do mar, nao vejo a hora de partir para Paris e comemorar a virada do ano a moda nativa - com bebidas francesas e desejos de que todos nos tenhamos um 2008 de muita saude, paz e harmonia.


sexta-feira, 30 de novembro de 2007

A ARTE DAS MUSAS

Qual e' o papel que a musica exerce na vida de cada um de nos? Eu levantei essa questao durante minhas caminhadas nas ruas estreitas e silenciosas de Poitiers e nas minhas conversas com os colegas franceses. A musica por aqui, no sentido cultural e antropologico, parece nao ter a mesma relevancia que tem as artes plasticas, por exemplo. Para quem vem do nosso Brasil brasileiro, a sensacao e' de que falta algo no ar.

Acredito que a musicalidade de cada um e' construida desde muito cedo, quando somos expostos involuntariamente as trilhas sonoras de nossos pais, parentes e amigos mais proximos. Tenho um prazer enorme em mergulhar no tempo cronologicamente e resgatar cada disco ou cada estilo musical que soou em meus ouvidos desde a infancia.

O primeiro contato consciente com uma combinacao de acordes que me fascinou aconteceu por volta dos oito anos de idade, nas idas ao colegio no fiat 147 branco da minha mae. No radio do carro tocava a AM Atalaia repleta de cancoes sertanejas de raiz, como Rolando Boldrin, por exemplo. As voltas do colegio na caravan do tio Gilberto eram animadas por Beatles e surf music dos anos cinquenta e sessenta.

Nao demorou muito para eu comecar a explorar a discoteca no minimo ecletica do meu pai - Ray Conniff, Elba Ramalho, Clara Nunes, Luiz Gonzaga, Roberto Carlos, Rite Lee, Eric Clapton, Julio Iglesias e ate' uma cantora paraguaia chamada Graziela. Por volta dos dez anos de idade adquiri minha primeira fita cassete - Blitz. Logo depois, meu pai me deu um walkman de aniversario acompanhado de uma fita do Elvis e a partir de entao meu universo musical se expandiu na mesma proporcao do rock brasileiro, que caminhava para seu auge de popularidade.

Uma epoca memoravel foi por volta dos dezesseis anos, quando comecei a me situar na cena independente do rock/pop britanico. A cada quinze dias, a livraria Guignone do aeroporto Afonso Pena recebia exemplares da Melody Maker, uma revista inglesa que trazia materias sobre o lado B da cena musical daquela regiao. Na ausencia da internet, algumas das poucas fontes de novidades sonoras eram a Melody e a galeria da vinte e quatro de maio no centro de Sao Paulo, de onde eu importava os melhores hits do rockabilly e punk tupiniquins.

A musica tomava enorme dimensao na minha vida quando resolvi aprender a tocar violao, ainda no ultimo ano do segundo grau. No inicio da universidade ja' tinha banda formada e havia passado de passivo receptor musical a dedicado compositor. Foram cerca de cinco anos tocando composicoes proprias com os Ultra Violetas, influenciado principalmente pelo shoegaze britanico. Curiosamente, quando me mudei para os Estados Unidos apos o termino da graduacao na UFPR, iniciei uma profunda viagem pela musica popular brasileira de todas as epocas. Na volta ao Brasil tres anos depois, a mudanca para o Rio de Janeiro aconteceu naturalmente, pelo menos em termos musicais, ja' que a sonoridade brasileira esta' presente de maneira intensa em todos os cantos dessa cidade.

No final de semana passado comprei um violao para cuidar da minha alma, como diria meu prezado amigo Scheinkmann. A silenciosa Poitiers oferece somente duas lojas de instrumentos musicais. Escolhi a Point d'Organ por ser a menor e mais aconchegante. Os precos variam de cinquenta a tres mil euros, mas nao e' uma relacao necessariamente direta com a qualidade do instrumento. Na verdade, o quesito essencial na compra de um violao e' bater os olhos e sentir se ele vai te acompanhar por muito ou pouco tempo. Ele acaba se transformando em um parceiro das horas alegres e tristes. O meu companheiro parece que vai ficar comigo por muito tempo. Inclusive passei essa semana tocando Chico Buarque, Vinicius de Moraes e Tom Jobim, que provavelmente ficarao registrados como a trilha sonora de alguns dias dessa minha viagem ao velho mundo.

Por fim, sugiro a voces que facam uma introspeccao musical e sintam o quanto e' que uma combinacao de sons e silencio organizada ao longo do tempo pode influenciar suas vidas - qual e' o papel que a musica exerce sobre sua personalidade, seja na forma de arte ou exercicio intelectual. A impressao que tenho e' que, por mais poitevine que alguem seja, e' dificil escapar ileso dos efeitos inspiradores e poeticos causados pelas notas musicais. Afinal, musica vem do grego musike techne - a arte das musas.



sábado, 17 de novembro de 2007

LOUCURAS NO CAMPO

Desde quarta-feira da semana passada a temperatura vem caindo e nesse final de semana ela literalmente despencou. A previsao de hoje e' -4 de minima e 5 graus centigrados de maxima. Algumas areas situadas ao longo do meu caminho diario para o laboratorio, a margem do rio Le Clain que cruza os arredores da cidade, me remetem as paisagens dos parques no auge do inverno curitibano - gramados brancos, chamines a todo vapor, telhados cobertos de gelo, arvores desfolhadas e neblina densa e rasteira.

Apesar de o inverno sequer ter iniciado, acho que o frio se encaixa perfeitamente em algumas epocas de nossas vidas e no meu caso e' a temperatura correta para a ocasiao. E' o momento de vestir os compactos e elegantes casacos, se enrolar nos cachecois de la e se afundar nas tocas quentinhas. De fato, a unica parte do meu corpo que sofre um pouco com as baixas temperaturas e' o nariz. Praticamente posso ouvir os prezados amigos me sugerindo comprar alguns metros quadrados de tecido para aquece-lo...

Frequentemente vejo alguns malucos que nao fazem a minima questao de se agasalhar. Alguns passeiam faceiros com finas camisas de pano e outros ate' de camisetas. Alias, depois de um pouco mais de tres meses aqui em Poitiers, comeco a identificar algumas loucuras da populacao local. Todo ser humano e' louco, desde sua concepcao ate' seu ultimo sopro de vida. Entretanto, dentro dos padroes limitantes das regras sociais em que estamos imersos, nada e' mais interessante do que observar algumas demonstracoes explicitas de loucuras. Em geral, os habitantes poitevines sao discretos e insossos, mas varios deles tem o costume de falar sozinhos. Outro dia acompanhei uma dessas auto-conversas dentro de um onibus que durou cerca de 30 minutos. A impressao que tive e' que o papo estava extremamente interessante. Tentei ouvir e entender um pouco, mas infelizmente o cidadao estava falando um pouco baixo demais e, alem disso, meu frances ainda nao chegou em um nivel suficientemente avancado para me intrometer em monologo alheio.

Uma coisa que tambem me chama a atencao e' a quantidade de fezes que encontra-se nas calcadas da cidade. E' preciso muito cuidado para nao atolar os pes nessas minas explosivas que parecem ser estrategicamente posicionadas nos caminhos mais movimentados. O pior de tudo e' que nem todas sao de cachorro ou de qualquer outro animal que pudesse evacuar a ceu aberto sem qualquer pudor. Boa parte delas e' de seres humanos. Ha' uma tendencia a pensar que sao obras de arte dos clochards. Se consultarmos o dicionario veremos que a definicao de clochard e' vagabundo. Mas na pratica vai um pouco alem disso. Eles vivem em comunidades e passam os dias vagando sem destino ou objetivo, quase sempre acompanhados de cachorros. Sobrevivem pedindo esmolas e mendigando por filosofia de vida. E' um pouco complicado para um brasileiro entender essa escolha, ja' que no nosso pais ha' uma multidao de pessoas que acaba virando clochard por falta de opcoes na vida. Mas cada louco com sua mania...

Eu costumava ouvir dizer que os franceses eram fumantes inveterados e nao tinham o costume de tomar muitos banhos. Em relacao a primeira, posso afirmar que procede. Inclusive os precos dos cigarros sao altissimos, cerca de 6 euros a carteira em media. Frequentemente vejo os estudantes fazendo seus proprios cigarrinhos economicos, com tabaco e papel comprados a varejo. Em relacao aos banhos, eu me aprofundaria um pouco mais na questao e diria que o povo daqui nao se simpatiza muito com a pratica da higiene corporal basica. E' dificil dizer quem toma banho ou nao, mas e' muito facil sentir a catinga de sovaco dentro dos recintos. Em geral, eles tambem nao fazem muita questao de cuidar dos dentes. Quase todas as manhas meu orientador academico me disfere um bonjour acompanhado por um sorriso escuro e um odor no minimo estranho. Ja' pensei em perguntar para ele de onde e' que vem aquele cheiro, mas achei melhor ficar na minha. Numa dessas e' capaz de eu passar por louco por querer me proteger do frio, ficar em silencio no onibus, fazer as necessidades nos toilettes, escovar os dentes e tomar banho todos os dias.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

EXPERIENCIAS

... como diria Oscar Wilde - "experiencia e' o nome que alguem deu a seus erros". Pois entao aqui inicio um registro cibernetico de meus erros, por meio do conteudo deste novo blog intitulado l'assommoir. Emprestei a ideia de montar o blog de meu parceiro aqui de Poitiers, o Daniel. Acho que pode ser uma maneira agradavel dos amigos acompanharem um pouco da minha viagem na vida e esse especial momento aqui na Franca. Provavelmente vou discorrer livremente sobre ideias aleatorias, sem papas na lingua ou travas na mente ou no coracao. Tambem sera' um incentivo a mais para eu encontrar tempo e inspiracao para registrar abertamente no papel alguns pensamentos que normalmente acabam se dissolvendo no meu dia-a-dia. Portanto, nao se surpreendam com frases ou paragrafos nonsenses por que a viagem esta' somente comecando...

O titulo do blog foi inspirado no livro homonimo de Emile Zola, um classico da literatura francesa. O que me agrada nesse titulo e' o fato de ele ter sido uma palavra utilizada na linguagem popular da Paris do seculo XIX e nao ter uma traducao literal para o ingles. Ou seja, e' uma palavra legitimamente francesa, que designava os lugares onde bebidas destiladas baratas eram vendidas. Ela tambem era associada ao ambiente e as pessoas que afogavam suas magoas bebendo ate' perder os sentidos. Eu tomei a liberdade de criar meu proprio sentido para palavra e utiliza-lo no subtitulo do blog - "semblante de um lugar onde a magoa se escorre e os copos se levantam em nome da liberdade de espirito".

Foi em nome da liberdade de espirito que abandonei a pequena e pitoresca Poitiers durante a primeira semana desse mes e passei dias fantasticos em Paris. Eu estava comecando a achar que a cultura francesa se resumia aos costumes provincianos poitevines. Acabei indo a Paris sem muitas expectativas e me surpreendi com a cidade, especialmente pela atmosfera artistica e cosmopolita de varias regioes, em particular de um bairro chamado Belleville. Longe dos milhares de turistas que se acumulam todos os dias nos belos pontos turisticos da cidade, este bairro transmite um sentimento mais humano e honesto. E' um lugar multicultural, onde prevalece a mistura de franceses e estrangeiros de varias origens. E' um reduto de artistas e musicos que originalmente se mudaram para la' atraidos pelos alugueis mais baratos e acabaram permanecendo ate' os dias de hoje.

As noites em Belleville sao vivas e cheias de energia. E foi exatamente la' onde houve o show do The Wedding Present, em um bar muito legal chamado La Maroquinerie. Inicialmente, minha ideia de ir a Paris era principalmente em funcao desse show especial, comemorativo dos 20 anos do album debut da banda - George Best. Sou um grande admirador tanto do wedding quanto do cinerama, a outra banda do David Gedge. Curti bastante o momento, como diria o Daniel, cantei e dancei varias cancoes do George Best, algumas do Watusi e algumas tambem do Cinerama.

Depois do dia do show ainda passei o final de semana na cidade. Retornei a Poitiers na segunda-feira, quase uma da manha. O problema foi acordar cedo para voltar a rotina do laboratorio algumas horas depois. Naquela semana demorei um pouco para me reacostumar ao ritmo mais cadenciado de vida aqui do interior. Porem, os dias se passaram e tudo voltou a ser mais ou menos como era antes...

Amanha e' sexta-feira, o dia mais esperado da semana. Teremos uma comemoracao de aniversario do meu outro parceiro, o Mauricio, regada a muito vinho frances e cerveja belga. Provavelmente vai acontecer uma festinha na cozinha da residencia universitaria Michel Foucault... A proposito, o Michel Foucault nasceu aqui em Poitiers. O Daniel, que e' historiador e filosofo, disse que ele deve ter se mandado assim que tomou conta do tamanho do buraco medieval em que ele se encontrava... Brincadeiras a parte, outro filosofo que tambem passeou bastante por aqui foi o Rene Descartes. Quem sabe na proxima postagem eu nao fale um pouco sobre como foi a festa e sobre a decadence avec elegance do cartesianismo...